|
O ato educativo se faz pela presença do educador numa ação contínua no fazer humano. Sabiamente Paulo Freire anunciou na sua obra que ninguém se educa sozinho, mas se educa por um processo de acúmulo das experiências que são refletidas pelo educando e pelo educador. A educação se realiza, propriamente, pelo exercício de trocas em que se intercambiam as aprendizagens e experiências dos seres humanos com outros seres humanos mediatizados pelo mundo. Ou seja, situados por uma ambiência histórica, os homens constroem o seu ser, instados pelo seu devir.
Esse fazer-se humano nada mais é, senão, a educação: o humano tomando consciência de si pela ação humana de realizar no outro a humanidade. No em torno de cada ser humano, existem pelo menos dois outros seres humanos e, ao redor destes, encontra-se a humanidade. É absolutamente condicional na vida dos seres humanos a pertinência da convivência com outros seres humanos na tarefa do fazer seres humanos mais humanos. No cenário atual, marcado pelo domínio da tecnicidade, o ser humano é facilmente levado pela manipulação dos sistemas tecnológicos, que se pretende tornar a humanidade um detalhe de pouco significado e a natureza como algo insignificante. O modelo da civilização tecnológica, é fruto de uma drástica separação entre os seres humanos e a natureza, digo, entre os homens e o mundo. Partindo deste horizonte de tematização se verificam três problemas reais em que se detêm a humanidade hoje: 1. o modelo civilizatório com a modernidade – a civilização técnico-científica; 2. a organização da sociabilidade capitalista com o fenômeno da globalização ou mundialização e 3. o pluralismo ou multiculturalismo.
Vive-se hoje um mundo do simulacro e do consumismo. Se por um lado se falseia a realidade, reproduzindo as situações mais inusitadas da vida, por outro, são graves os problemas colocados pela humanidade hoje. A crítica anunciada pelo paradigma ecológico denuncia que se a humanidade, especialmente os países pobres, atingisse os níveis de consumo dos países desenvolvidos, ditos de primeiro mundo ou países ricos, seria grave o que teria por vir: a própria destruição do nosso planeta. É urgente a tomada de consciência da humanidade para as estratégias de dominação impostas pela sedução da técnica.
A Escola de Frankfurt, por meio de Adorno, Horkeimer e Marcuse entendiam que a dominação do homem pela ciência se dava por meio da técnica. Neste sentido a técnica pode ser compreendida como uma forma de representação da vida do homem moderno e a sua relação com a natureza. Assim, o homem se destaca como sujeito, afirmando-se como um ser capaz de se dispor sobre o seu mundo, contrapondo-se à natureza. A técnica age alterando a condição da forma de se entender o mundo e a vida humana, pois tudo fica submetido à dominação. Aqui se coloca um sério dilema: como imaginar o mundo moderno sem as contribuições da ciência e da técnica? A ciência e a técnica, como um tipo específico de saber, levam a condição da vida humana a uma situação limítrofe, pois se põe em cheque a tecnificação da vida dos homens no atual contexto histórico. Como entender o crescimento da indústria, e simultaneamente a completa destruição da natureza, isto de que utilizamos como a base material de sustentabilidade da vida humana na Terra? Como fica a questão do problema entre a natureza e a civilização humana? Aqui se explicita a lógica criada pela relação em que a técnica se põe como antagonista da natureza. A ameaça da destruição da humanidade é eminente se não houver uma séria tomada de posição da humanidade diante do atual desenvolvimento científico-tecnológico. A idéia difundida com a modernidade do progresso se tornou um regresso quando se pauta a relação do mundo físico e o mundo humano. Como se relacionam as condições econômicas com as condições ambientais? Percebe-se que das relações societárias se mercantilizou a política e o mercado se tornou o árbitro contra de onde tudo parte e se determina.
Com base nessa reflexão, a educação ficou refém das relações econômicas. Para Karl Otto Apel, a economia se tornou com a modernidade um processo autônomo e autocentrado negando qualquer perspectiva ética. A vida humana é mercantilizada e as relações sociais são dominadas pela racionalidade técnico-instrumental hegemônica na sociedade atual.
Nesse contexto histórico, em que vive a humanidade, tem-se a hegemonização de um tipo de razão: a razão instrumental ou o saber operatório. A razão instrumental absolutiza a técnica, utilizando a ciência como um saber que é fundamento de um poder que destrói a natureza, explora o homem submetendo-o a situações estúpidas de controle e manipulação, nas quais se constata a possibilidade de destruição da própria vida humana. Como se não bastasse, a ousadia tecnológica levou-nos a exploração dos recursos naturais da Terra como algo inesgotável, o que levou o movimento ecológico a anunciar a crise paradigmática, em que os níveis e produção de consumo podem levar o nosso planeta ao seu esgotamento, inviabilizando não somente a vida humana, mas, o que é mais grave, destinando também a falência dos recursos naturais e, assim, levar a Terra a sua extenuação como ser vivo esta que é útero da vida em que se habita.
Então mais graves são os problemas e estamos desafiados a responder, mesmo que marcados pelas circunstâncias da civilização que engendramos sob a égide da técnica e da ciência. É trágico o projeto intencionado pelo movimento iluminista em que se afirmava que o saber das ciências poderia libertar a humanidade, emancipando-a, é apreendido e dominado, é levado à radicalização dos processos manipulatórios em que submete a humanidade ao controle e subsunção em todas as esferas da sociabilidade capitalista. Portanto, o modelo de desenvolvimento por que a humanidade levou em curso nos últimos séculos conduziu-o a uma problemática ética sobre a validade dos princípios que sustentam os critérios morais na civilização contemporânea.
A aplicação da tecnologia aos processos produtivos levou ao aumento da produção. É sabido que nem todos os produtos são permitidos para o consumo da humanidade. E também o consumo exagerado inexoravelmente eleva a produção de bens exigindo a exploração dos recursos naturais que são finitos. Há, portanto, um descompasso entre a exacerbação da produção, do consumo e a limitação das potencialidades da natureza e da própria terra como planeta.
É clara a posição da antropologia comportamentalista que permite apontar a ação humana como determinante para que o homem conquiste o seu ser. Entende-se, então, que o ser humano não está pronto, tendo, assim, que ser construído. Diferente de Aristóteles, que afirma na sua obra a dimensão política como inerente ao ser humano, Kant na modernidade vai dizer que o humano é uma construção. Essa construção que se faz aberta para o futuro, pode-se denominar por educação. Na sua essência o homem se faz homem pelas relações em que estabelece com o seu mundo, consigo mesmo e com os outros homens. Na modernidade a razão emergiu como condição de possibilidade da emancipação humana. Aqui a razão é compreendida como mediadora da autonomia humana, pois a ação humana exige critérios que são legitimados numa ordem racional. Entende-se que esse conflito é constitutivo da situação que determina o ser humano. Para o humano manter a sua autoconservação enquanto espécie humana, a agressão torna-se algo permanente. Assim, o conflito situa como núcleo central que vai configurar baseado no poder. Por isso, a racionalidade da vida humana na sua gênese gesta a necessidade de estabelecer regras. Numa ordem racional surgem as leis universais. A razão é a instância em que se radicam as normas e leis que, enquanto válidas, devem ser respeitadas por todos. Se os sujeitos devem ser responsáveis pelas suas ações à ética, isso revela a necessidade da liberdade.
Diante deste cenário, o homem, por força das circunstâncias por ele criadas, se tornou a medida de si mesmo e de todas as coisas. É fácil constatar que a humanidade criou problemas novos. Isso modificou a face dos movimentos sociais, alterando a sua composição de forma e conteúdo. O século XX foi o século da tecnologia. Nunca se teve mudanças tecnológicas tão intensas e rápidas como no século passado. Houve a associação do capitalismo com a utilização da moderna tecnologia. Tudo isso provocou o fim do emprego real, com a reestruturação produtiva. O sistema capitalista criou uma nova configuração internacional com a intervenção do Estado na economia. A internacionalização do capital e a sua regulação somente foi possível, mediante o uso das tecnologias da informação e da comunicação, porque permitiu a especulação dos capitais que se movimentam aos trilhões circulando pelos mercados para além dos Estados nacionais, superando a relação espaço e tempo. A tecnologia da informação permitiu a articulação dos capitais mediante os mercados financeiros. Isso caracterizou a globalização, marcada pelo processo de financeirização dos mercados e a desregulamentação da economia.
A questão do pluralismo ou multiculturalismo é colocada pela situação própria das sociedades modernas que se caracterizam como sociedades plurais. O fenômeno da migração levou um segmento da humanidade a buscar situações melhores de vida. Na forma do conceito de representação geográfica, o mundo está divido em dois hemisférios: norte e sul. Daí se tem atualmente a migração dos “países pobres do norte” para os “países ricos do sul”. A questão do pluralismo da vida humana não é de fácil solução. Os problemas da humanidade são universais – a fome, a miséria, a defesa da ecologia, a pobreza no mundo -, mas como criar uma ética que responda a estes desafios? Falta consenso para viabilizar o diálogo em busca de se estabelecerem argumentos minimamente válidos.
A saída para a efetivação do homem como sujeito é a construção de uma outra sociabilidade que reponha o ser humano como sujeito legitimando o que Marx, para além da sociedade capitalista, denominou de reino da liberdade.
A instituição escolar
Na sociedade moderna a escola cumpre uma função social de grande relevância para a vida comunitária: na escola ocorre a formalização dos processos educativos. A responsabilidade fundamental reside na organicidade da estruturação dos processos formais de humanização. Na escola se determina o papel de socialização do conhecimento científico. Aqui a escola é entendida como locus da própria ciência. E como instituição social a escola se faz como uma determinação da própria sociabilidade em que está inserida.
A escola é, também, comunidade. Comunidade de práticas e comunidade de vida em que se faz como lugar de aprendizagem de vivências de valores e respeito ao outro, onde se estreitam vínculos por meio da aprendizagem de conteúdos previamente estandardizados que permitem o amadurecimento intelectual e a formação da personalidade dos indivíduos – principalmente crianças e jovens. Amadurecem, pois, aprendendo conteúdos significativos para a vida por meio das inter-relações que forjam as convivências, sejam conflituosas, sejam fraternais, para a determinação do ser do homem. Mas, neste fazer-se pelo conhecer e pelo conviver, é que se fortalecem as interações de pertencimento e grupo, gerando as identidades e o espírito gregário de identificação entre as pessoas. Os valores da instituição escolar permeiam as práticas curriculares, os objetivos que se definem nos conteúdos e disciplinas proporcionando uma unidade de idéias e práticas coletivas. No interior dessas práticas se estabelecem os afetos e se partilham apreços e carinhos por um lado, ou, por outro, se manifestam à indiferença e o desprezo. As práticas dos relacionamentos no interior da escola determinam a cultura escolar. O padrão cultural das escolas se constitui como rede complexa de linguagens e códigos de múltiplos estilos. A comunicação que permite estas trocas em rede se dá de forma virtual, presencial ou por meio de ambas.
Ensinar e aprender não ocorre apenas na escola. O debate atual tem sugerido que, diante da multiplicidade de tarefas, está reservado à escola, como atividade fim, a aprendizagem do método. Não é que não seja importante aprender, mas é preciso dar sentido ao que se ensina. Trata-se de considerar o como aprender, ou seja, o saber-aprender. Isso exige um sobre esforço em superar a fragmentação dos saberes disciplinares. A integração do conhecimento, ou mesmo, a busca de uma unidade nos conteúdos de ensino, motivados pelo diálogo entre os sujeitos e as matrizes dos saberes institucionalizados, se definem como projetos pedagógicos.
Os professores como formadores
A ambição deste novo tempo é levar os indivíduos e a sociedade à contínua busca pelo conhecimento. Mas uma questão se evidencia: este tipo de saber que é trabalhado na escola é o conhecimento científico, que fundamenta a técnica. Nesta perspectiva é possível a emancipação humana? Não se trata da razão em si, mas do tipo de racionalidade que se tornou hegemônica na esfera do capitalismo. Não é a ciência em si que é ruim. Mas o tipo de conhecimento que foi utilizado instrumentalmente pela lógica do serviço do capital. A emancipação humana constituirá uma das maiores tarefas que se colocará diante da escola neste século. A libertação da humanidade será um dos temas mais importantes da escola, o que necessariamente se envolverão os professores. A contribuição de cada docente se encontra na tentativa de alcançar objetivos de ensino que serão demarcados como metas para a verdadeira humanização do humano. O conhecimento, os saberes e a cultura são os objetos de ensino da escola.
Aos saberes descartáveis, que constituem a base material das fontes de informação, serão contingentes, passageiros e fugazes. Não conseguirão a sustentação e não se transformarão em saberes para o ensino escolar. O saber escolar, na forma do conhecimento a ser ensinado, terá que ter consistência na sua fundamentação. O conceito de transposição didática nos é útil para a compreensão de que o ensino requer uma leitura crítica do seu conteúdo, a ser realizada pelos docentes. O trabalho docente vai exigir uma apropriação crítica do método científico, como metodologia de ensino, e o compromisso dos professores em desenvolverem um tipo de ensino que levem as crianças e os jovens ao questionamento, à dúvida, instigando neles a curiosidade na descoberta do mundo. Como esse processo de crítica ao conhecimento pode ser trabalhado em sala de aula? Qual a metodologia de ensino que viabilize a pergunta sobre o que se está estudando? As perguntas das crianças são no mínimo intrigantes e, exige respostas inteligentes e sofisticadas, que devem ser respondidas com simplicidade como o saber que sabe, para ser sábio. Imagine responder para uma criança porque a sombra a acompanha quando ela anda ao sol ou por que a lua a segue a noite? Ou se não existisse o sol, como seria o dia? Se não existisse a lua como seria a noite? Parecem até perguntas tolas, mas que se encontram a dúvida como fonte que impulsiona a descoberta. Você já perguntou aos seus alunos o que eles desejam aprender? Ou melhor, quais são as suas perguntas? Experimente. Faça este exercício na sala de aula e veja quantas novidades estão a sua espera para se tratar como unidades do seu programa de disciplina.
Portanto, cabe aos professores a responsabilidade em conduzir o conhecimento, como o pedagogo na Grécia antiga conduzia a criança para a escola. As situações de ensino e aprendizagem devem buscar o desenvolvimento da autonomia e o constante estímulo à criatividade. O sucesso da ação educativa e da realização da instituição escolar está na atividade de abertura da escola para o mundo. A capacidade de os professores promoverem os alunos respostas com novas perguntas exige a responsabilidade com o que se faz na docência. Novas atividades nos são colocadas: Como tornar a escola um ambiente de aprendizagem, mas que seja um ambiente em que se possa problematizar a vida, aprendendo valores, respeito pelas diferenças, também refinamento do espírito crítico?
Somente o professor comprometido, compromissado, empenhado com a reflexão do saber e com a atividade do fazer docente será capaz de apontar caminhos para uma outra escola possível. A docência como uma arte e como ciência requer do professor a sua condição de sujeito, que se, auto-conheça, como pessoa. O professor assume um papel decisivo para a descoberta e o desabrochar das potencialidades humanas em cada indivíduo. A qualidade de ser um bom professor não se aprende nos bancos das escolas de formação ou da universidade, mas se faz na medida em que o professor a si mesmo melhora como pessoa, amadurece como ser humano. Portanto, a formação do professor deve ser contínua e os conteúdos não devem ser limitados aos saberes pedagógicos, mas outros saberes devem compor esta formação. É imprescindível promover a formação pessoal do professor, associada ao acompanhamento da atualização e transformações, por que passam os conhecimentos métodos, metodologias e as fontes de informação. Mas esta formação renovada somente terá validade se a qualidade da escola for, também, atualizada. O aperfeiçoamento docente deve impregnar o professor de ser capaz de colocar em prática, não de forma utilitária, mas refletir à luz de uma referência metodológica, as técnicas, porém inovando-as, motivando-se, assim, a fazer uso das tecnologias aplicadas ao ensino para qualificar a sua prática, o que lhe possibilitará a flexibilidade na ação docente com experiências diferenciadas, em situações diferentes e sob condições variáveis. Isso permite ao professor aprender pelas experiências e trocas que se constroem para o acúmulo da cultura docente. A função do professor, como formador, consiste em abrir perspectivas para as pessoas, despertando nelas a consciência e o sentido para a vida. |