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RESUMO
O intuito deste artigo é refletir sobre o potencial pedagógico existente nos cenários das salas de casa e da escola, principalmente na perspectiva de ambientes educativos, de modo a transformem-se em cenários de aprendizagem significativa. Defende que é necessário conhecer a linguagem midiática utilizadas no entretenimento de crianças. Utiliza estudo bibliográfico e de caso, visando analisar a rotina dos espaços da escola e analogamente o espaço de casa. Introduz o termo cuidador de criança, representando pessoa com possibilidades concretas para o desenvolvimento de combinados e de atitudes positivas, pautadas no diálogo, na autoridade de adulto, no gerenciamento de limites ligados ao tempo de exposição e ao monitoramento da programação midiática. Problematiza a discussão com exemplos do desenho animado Pica-Pau e da música Dança do Créu. Aponta para a redefinição da percepção dos adultos quanto a ausência física em casa, visando redimensioná-la para o desenvolvimento da autonomia infantil. Elenca alguns parâmetros diferenciais que tornem os ambientes educativos atrativos, gerando subsídios aos docentes no aproveitamento de recursos e estratégias voltadas para boas práticas pedagógicas.
Palavras-chave: ambientes educativos; cenários; ludicidade; linguagem midiática; prática pedagógica.
Introdução
A motivação da escrita do presente texto recai na observação direta de uma escola de educação básica, especificamente, observação de turmas de educação infantil. Nomeadamente uma escola que cuida da educação de crianças deve concebê-la, como “um ser social que nasce com capacidades afetivas, emocionais e cognitivas. Tem desejo de estar próxima às pessoas e é capaz de interagir e aprender com elas de forma que possa compreender e influenciar seu ambiente.” (RCNEI, 1998, p.21).
Tal concepção deixa claro que para que as crianças se desenvolvam elas precisam aprender com os outros por meio dos vínculos que estabelece com outras crianças e com os adultos. Nesse processo de interação as crianças prescindem da utilização de alguns recursos, tais como: a imitação, o faz-de-conta, a oposição, a linguagem e a apropriação da imagem corporal.
Insere-se tal pressuposto no conceito de aprendizagem a partir da concepção construtivista e desenvolvimentista como sendo “um processo dinâmico, onde o aluno joga um papel ativo, em constante interação com o envolvimento e com o grupo da turma onde está integrado, muda as suas noções, idéias, atitudes e aquisições.” (FONSECA, 1995, p.82). Desse modo,
no interacionismo, o biológico não se reduz ao social. Um é condição vital do outro [...] o desenvolvimento é concebido como o resultado de complexas interações entre hereditariedade e o meio. A hereditariedade não se opõe ao meio. É em função da sua hereditariedade que o ser humano cria o seu meio, mas é o meio que dá a hereditariedade a sua expressão, orientação e forma. (FONSECA apud ZAZZO, 1995, p.135).
Criar um ambiente estimulador ao desenvolvimento da criança, pautado na alegria, no brincar, na criatividade, e em um bom planejamento das atividades é distinguir, claramente, a escola de educação infantil de um de um lugar de guardar crianças por um determinado período do dia. Assim, destaca-se a programação da escola campo por meio do trabalho conduzido por um grupo de educadoras de crianças de 3 a 5 anos.
Revezando-se diariamente na condução de cantigas ritmadas que envolvem todo o corpo da criança em movimentos em que o bater das mãos e dos pés, o pular seqüenciado, o esticar-se, o relaxar-se, o ouvir, o memorizar, o aplaudir ensinam a pedir licença, a dizer obrigado, a agradecer e a ficar quieta.
A rotina da escola observada é planejada, incluindo atividades no pátio, nas salas de aula, nas salas de vídeo, na ida semanal à biblioteca e na ida ao parquinho, sem dissociar o aprender do brincar e o brincar como forma de aprender ludicamente.
Denominar-se-á de Escola A o campo observado, situando-o no bairro da Trizidela da Maioba, na cidade de São José de Ribamar no Estado do Maranhão. Mas, muitas vezes é considerado como pertencente ao município de São Luís, a capital do Maranhão dada a localização entre os dois municípios.
Em decorrência da referida localização favorece que nela estudem alunos de diferentes agrupamentos urbanos, a exemplo dos bairros da Maioba, do Maiobão, de São José de Ribamar e do Bairro Cohatrac (subdivido em Cohatrac I, II, III, IV e V), além dos bairros da Cohab, do Anil e do Turu e outros das adjacências. Nesse sentido, caracteriza-se a clientela como pertencente a classe média, com famílias com bom nível sócio-econômico e cultural.
2 PROCESSO DE INTERAÇÃO INFANTIL: recursos utilizados pela criança
Nesse contexto, cabe o entendimento desse processo de interação em que as crianças prescindem da utilização dos recursos da imitação, do faz-de-conta, da oposição, da linguagem e da apropriação da imagem corporal, explicitados a seguir.
A imitação apresenta-se como um aspecto importante do processo de diferenciação entre o eu e o outro. A percepção e a compreensão infantis levam-na a interpretar os diferentes papéis envolvidos nas interações sociais. Daí ser comum a criança repetir gestos, expressões faciais e sons em exercícios de imitação do entorno do seu ambiente social. Desse modo, a imitação será o resultado da capacidade da criança em observar e aprender com seus pares, identificando-se com as pessoas do seu circulo afetivo, sendo aceita para, ao mesmo tempo, ir diferenciando-se do outro.
Tal capacidade de imitação deve ser entendida como um processo de reconstrução interno, distinguindo-se da cópia ou da repetição mecânica, já que a “observação é uma das capacidades humanas que auxiliam as crianças a construírem um processo de diferenciação dos outros e conseqüentemente sua identidade.” (RCNEI, idem, p. 21).
O faz-de-conta, por sua vez, leva as crianças a aprenderem a agir em função da imagem do outro. É uma atividade inserida na necessidade da criança em brincar. E “
O modo de brincar da criança reflete [...] passagem do subjetivo ao objetivo, do eu ao outro, com o declínio da brincadeira simbólica e o nascimento do jogo de regras, por volta dos 5 anos, onde o outro é pouco a pouco mais percebido e respeitado como alguém separado, que também pensa, que gosta de ganhar e sofre ao perder. A construção da moralidade se afirma no social vivido e internalizado. (OLIVEIRA, 1998, p. 25)
Destaca-se a importância das brincadeiras, considerando que podem desenvolver a atenção, a imitação, a memória e a imaginação. Assim, destaca-se de igual modo a boa formação daquele que cuida da criança nessa fase da infância, sendo importante favorecer o brincar em que o lúdico seja instrumento de aprendizagem por meio da permissão do adulto à imaginação infantil no seu contar histórias, conversar com o amiguinho invisível, dar comidinha aos bonecos e outras coisas de criança.
O “brincar funciona como um cenário no qual as crianças tornam-se capazes não só de imitar a vida como também de transformá-la. Os heróis, por exemplo, lutam contra os inimigos, mas também podem ter filhos, cozinhar e ir ao circo.” (RCNEI, ibidem, p. 22). Defende-se desse modo, o brincar como estratégica facilitadora do aprender, em casa ou na escola, sendo de igual importância a mediação do adulto.
Nesse contexto, somada a imitação e ao faz-de-conta apresenta-se a oposição como um recurso utilizado pela criança em seu processo de construção como sujeito. O conceito de oposição significa diferenciar-se do outro. É a defesa do ponto de vista e dos desejos da criança.
De La Taille (1999) aponta para a motivação infantil de crescer e de alçar-se à condição de adulto. E mais adiante afirma: “crescer, desenvolver-se é superar limites. E como não é pura maturação biológica que leva a criança a crescer seu desejo de fazê-lo é condição sine qua non. (DE LA TAILLE, idem, p.14).
Percebe-se que os recursos utilizados pela criança, apresentam-se dentro do campo de diferenciação entre o eu e o outro. Desse mesmo modo, insere-se o recurso linguagem. Notadamente, a linguagem enriquece as possibilidades de comunicação e expressão da criança, sendo um veículo de socialização. Daí,
Uns exemplos talvez possam ilustrar melhor [...] A menina G., nos seus quatro anos, com ótima estimulação no lar de classe média, dispondo de farto material de natureza lingüística, também já tem um conceito de livro, de biblioteca e de escrita que outras crianças de ambientes carentes quanto a estes aspectos podem não ter. Ela, com pequenos traços, até mesmo com algumas letras, escreve bilhetes que ‘lê’ ou ‘soletra’ enquanto ‘escreve’. Vendo a mãe constantemente escrevendo, indaga o que tanto escreve e informada de que é sua tese, passa a escrever a ‘sua tese’. Solicita folhas de papel, pastas, papel quadriculado. Imita a mãe na organização dos papéis. Observa-a atentamente, indaga o porquê de jogar fora folhas escritas, o porquê de olhar nos livros e cópias xerox de artigos e revistas [...]. (WITTER, Geraldina Porto, 1987, p. 158-159).
Fica claro que é na interação social que a criança é inserida na linguagem, partilhando significados e assimilando significados com o outro. Através da linguagem passa a outras realidades sem necessariamente, passar pela experiência concreta. Aliada a imaginação por meio das histórias infantis será fonte de informações culturais, somadas as vivências concretas da criança. Situa-se, a título de exemplo, o Saci Pererê, a Branca de Neve e a Chapeuzinho Vermelho.
Aborda-se agora o recurso apropriação da imagem corporal, destacando-se como sendo “a aquisição da consciência dos limites do próprio corpo”, sendo “um aspecto importante do processo de diferenciação do eu e do outro e da construção da identidade”. (RCNEI, ibidem, p. 25).
E pergunta-se com De La Talle:
a partir de qual momento [...] uma criança tem consciência de que é ser perceptível por outros seres? De fato, para termos a noção do esconder-se, é preciso antes termos a noção da própria perceptibilidade, ou seja, do fato de que outras pessoas podem nos ver, escutar, tocar, sentir nosso cheiro. Para nós, adultos, isso é óbvio: se faço barulho quem está perto o ouvirá; se entro numa sala, quem está nela me verá etc. mas, será que um bebê sabe disso? Será que ele sabe que é visto, ouvido, etc.? (DE LA TAILLE, idem, p. 127)
Destaca-se, desse modo, a necessidade de deixar a criança explorar o mundo de sensações por meio do contato físico com seus pares, observando o comportamento daqueles com quem convive e, então, vai aprendendo sobre o mundo em que vive, sobre si mesma, expressando-se por meio da linguagem corporal.
3 A LUDICIDADE: estudando as possibilidades concretas e criativas para aplicação na Educação Infantil
Inicia-se por destacar, a formação do professor para atuação na educação infantil e nas séries iniciais do ensino fundamental como um profissional que pesquisa, que cria estratégias diferenciadas para lidar com o ser humano em seu momento mais precioso, a infância.
Para tanto, esse profissional deve ser depositário de habilidades e competências bem definidas ao exercício da docência nesta fase em que o ato de ensinar é sinônimo de dar sustentação ao aprender significativo, livre e dinâmico da criança. Desse modo, o ato de educar não recai na natureza de conteúdos programáticos rígidos, sistematizados em torno de avaliações somativas, no medo da reprovação ou da retenção da criança no momento da transição de um nível a outro.
Entretanto, a responsabilidade em educar a criança é potencializada pela exigência da sociedade quanto ao aprendizado da leitura, da escrita e dos números. Nesse contexto, situa-se o papel da professora alfabetizadora, descartando-se o termo tia por ser anti-pedagógico e por anular o necessário profissionalismo a função exercida pela professora, parafraseando Freire (1993) em seu combate à denominação tia que erroneamente vem substituindo o termo professora.
A professora faz a intervenção nas brincadeiras de faz-de-conta, tendo clareza de que não existe regras que determinem a natureza da intervenção docente nas brincadeiras de faz-de-conta das crianças. Porém, há meios a que podem recorrer na promoção e enriquecimento das condições oferecidas às crianças.
As práticas cotidianas devem envolver o cuidado com o cenário através da organização do espaço para as atividades do brincar. Na escola observada este espaço é o pátio, aonde reunindo condições, quase ideais, abriga crianças sentadas no chão com piso revestido de cerâmica fria e limpinha. É um local que recebe a ventilação natural, em dias quentes ou no período da tarde o calorzinho incomoda, mas nada que impeça o cantar, o ouvir e o dançar.
Todos os dias, antes do início das atividades na sala de aula com os materiais impressos, as crianças deslocam-se para o pátio algumas andam de mãos dadas com o colega de turma, outras enfileiradas e umas poucas, sozinhas (com os braços soltos em um movimento para lá e para cá).
Algumas atividades desenvolvidas na rotina do pátio transformam algumas crianças em protagonistas de dramatizações, sendo devidamente fantasiadas para o brincar de faz-de-conta com a turma toda. Foi assim com a atividade desenvolvida a partir da música Pequenina Flor (ver figuras 1 e 2):
Em que as crianças, após aprenderem a letra da música, cantaram muitas vezes para afinal dramatizarem a canção na rotina diária do pátio. É com Santana que se apresenta:
Vem pequenina Flor
Vem para o meu jardim
É grande o meu amor
Tem pena de mim
Se não fosse um passarinho
E não tivesse que voar
Ficaria sempre em terra
Só pra te ver brotar ai,ai
Sou a chuva que demora
Mas presente sempre estou
E a terra, às vezes, molho
E depois é que me vou ai, ai
Sou alegre jardineiro
Muito cuidado vou ter
Pois tu és tão pequenina
E eu posso não te ver, ai, ai
(SANTANA, Celina. 1992)
Desse modo, a professora além de especialista em alfabetizar letrando, que consiste em “fornecer ferramentas para o aluno construir o seu processo de aprendizagem da leitura e da escrita. Praticar a leitura e a escrita no cotidiano escolar”, torna-se especialista em práticas interdisciplinares por meio de atividades significativas para a rotina das crianças.
Concordando-se com Barbosa (2006, p.70) quando afirma que “precisamos refletir sobre o significado da rotina em nossas vidas e nas vidas de nossas crianças, já que criar e fazer história são duas ações importantes que nos diferenciam de outros animais.” E acrescenta em seu poema Agitação:
Menino sozinho em casa...
Pai viaja e, às vezes volta; Mãe trabalha e nunca se atrasa, a não ser quando a substituta falta. E o menino? Fica sozinho em casa. Nesse tempo sem controle, come à hora que deseja, vê TV em altos brados, escolhe desenhos animados, nos quais tudo esbraveja. Muita luta, desagrados, bem e mal a disputar o poder sobre a bandeja. E o menino vê. Com o seu controle remoto, viaja entre os canais. Quanto mais luta e matança, mais ventania e terremoto, mais se interessa a criança. O menino é convidado, a todo o momento a mudar o foco, e seu pensamento entusiasmado, descentra, voa, toca. Sua cabeça vira um “balaio”, seus sentimentos, um raio, bailados de flocos ao vento. Rapidez, movimento, agitação. Sem simbolizar esse ensaio, leva para a vida esta lição. Na escola, não senta, chuta tudo para o alto, não concentra na leitura, fica sempre em sobressalto. Cutuca o amigo, derruba o caderno, e de tanto castigo, a vida vira um inferno: “Fulano, pare! Fulano quieto! Fulano, sente! Fulano, saia, pare de atormentar as meninas. Aqui é escola, e não é praia.”
Será que acalmá-lo é possível? Espantar essa poeira, essa neblina? Talvez o médico consiga com a pequena “Ritalina”. (BARBOSA, 2006,p.70-71)
Entretanto, o como e o quando o professor deve intervir? Acredita-se que na rotina escolar, servindo de instrumento ao planejamento de atividades interdisciplinares. Desse modo, destaca-se que na rotina das professoras e crianças da escola observada, identificou-se que o dramatizar a letra da música deu asas à imaginação infantil.
A linguagem oral concretizada no enredo da dramatização para depois, no momento da roda de conversa, incluindo também o registro das experiências vividas pelas crianças.
4 O CENÁRIO DAS SALAS DE CASA E DA ESCOLA: o espaço midiático da TV
Adotou-se nesse trabalho o termo cuidador, concebendo-o como aquela pessoa responsável pela criança, visando condições concretas para o desenvolvimento pleno da aprendizagem infantil por meio do estabelecimento de combinados e atitudes positivas refletidas no diálogo como fonte conciliatória para o gerenciamento de limites de tempo e da qualidade da aprendizagem.
Parte-se do princípio do cuidado autêntico, diferentemente do abandonar na frente da telinha no ato de entretenimento vazio, visando deixar a criança quieta. Nesse contexto, pergunta-se com Barbosa (idem): Que uso se faz da televisão na escola e em casa? O que as crianças estão assistindo? Em que situações elas reelaboram o que elas assistem?
Na busca de respostas, afirma-se que as crianças têm cada vez menos restrição em como assistir televisão: “em relação à distância que ficam do aparelho, ao volume do som, à posição que permanecerão diante do aparelho horas a fio ou a outras atividades realizadas ao mesmo tempo, como comer e fazer a lição.” (Barbosa, ibidem, p. 135).
Problematiza-se a partir da discussão sobre desenhos animados que, dentre as várias funções, eles trazem fantasias que habitam o mundo infantil. Em contrapartida, trazem embutidas mensagens de competição, de violência e de outros contra-valores que apesar do esforço de não serem ensinados, fazem parte da rotina das crianças.
Tome-se como exemplo o desenho animado Pica-Pau (Woody Woodpecker, no original em inglês). É um personagem de desenho animado, um pica-pau antropomórfico, ou seja, com atributos humanos, estes normalmente incluem capacidade para pensamentos racionais, emoções e uma postura ereta.
Pica-Pau estrelou vários curta-metragens de animação produzidos por Walter Lantz e distribuídos pela Universal Pictures. É do gênero em que as personagens fazem a comédia maluca que se tornaram populares nos anos 40, sendo também em 40, o ano em que foi criado pelo artista de storyboard Ben Hardaway.
Em seus primeiros desenhos animados, o Pica-Pau aparece como um pássaro maluco com uma aparência grotesca. Mas, ao longo dos anos, sofreu diversas mudanças no seu visual e ganhou traços mais simpáticos, uma aparência mais refinada e um temperamento mais tranqüilo.
Destaca-se, para uma breve análise o filme do Pica-pau Um biruta às soltas (1945). Fica o convite para acessá-lo, visando análise sob um olhar crítico e de diálogo com a criança: http://br.youtube.com/watch?v=pPv0pmtQyXM
Nesse filme o Pica-pau leva à loucura a personagem Zé Magrela que trabalha no calçamento, entretanto, o Pica-Pau "o biruta" que insiste em estragar o trabalho graças ao seu jogo de golfe. No início do filme o Pica-Pau encontra-se no topo de uma árvore que apesar da sua pequena dimensão assemelha-se a um campo de golfe. Ele com um taco nas mãos (asas) projeta a bola que cai na calçada com cimento fresco, sendo indiferente às placas de aviso (Cuidado: Cimento fresco!) e pergunta ironicamente aonde está a bola (que encontra-se bem à sua frente).
Daí, em diante inicia uma série de absurdos que misturam cenas de perseguição, violência, intolerância e muita maldade. E segundo Kehl,
A exposição permanente a um mundo ficcional, no qual a solução por meios indesejáveis é a mais esperada, amplia o limiar de tolerância àquelas soluções. Isso quer dizer que as crianças podem admitir com menos espanto ações indesejáveis, por estarem expostas às imagens que matam, que roubam, que criam armadilhas, que ironizam, que enganam, justificando, de certa forma, o grande interesse pelas figuras do mau, que tenho percebido em crianças pequenas. (KEHL apud Barbosa, ibidem, p.137)
A programação da TV comercial é manipulada a partir diferentes interesses nomeadamente os interesses mercadológicos. Entretanto, a programação entra em nossos espaços, sob o consentimento de quem tem o controle de ligar e desligar o aparelho. Desse modo a responsabilidade torna-se compartilhada na decisão de deixar ou não as imagens serem assistidas pela criança. Ou de outro modo o adulto venha a admitir ser discordante de que a exposição demasiada venha a causar problemas à saúde física e emocional da criança.
Aponta-se, de outro modo, para o papel de adulto com senso crítico e consciente do seu papel de educador, conseguindo exercer sua autoridade, mediante: o auxílio na seleção da programação infantil; o diálogo sobre a programação da TV; a sondagem do entendimento da criança sobre o que vê e ouve; a conexão às páginas educativas; do bloqueio de canais ou páginas eletrônicas inadequadas; o monitoramento, a orientação e o fazer com a criança; a leitura de bons livros para e com a criança; a escuta de músicas infantis (as aprendidas na escola, por exemplo) e destacando-se, o estímulo a autonomia da criança.
Desse modo, destaca-se a importância dos combinados prévios com as crianças, representando uma estratégia que visa o cumprimento da rotina a partir de regras e normas acertadas pelo grupo (turma ou família), sob a mediação do adulto. Tal estratégia se aplica ao cuidador, seja a professora, o pai, a mãe ou o responsável pela criança na ausência dos pais.
A firmeza do adulto é importante para que os combinados sejam eficazes. Desse modo, o adulto ao dizer que vai fazer algo tem que fazê-lo, caso contrário estará demonstrando insegurança, resultando em manipulação emocional e tornando-o refém das vontades da criança. Então, o não deve vir acompanhado de explicações pontuais e precisas aonde o porquê infantil seja valorizado, mas sem muitas justificativas desnecessárias.
Depois de proferido o não do adulto ele passa a representar uma negação concreta bem fundamentada e nunca, um talvez. Apesar de parecer rígido, representa uma possibilidade viável no investimento no futuro da criança, já que crescerá compreendo que não poderá fazer tudo o que deseja, frente as frustrações que também fazem parte da vida.
4.1 A sala de aula e os espaços multimídias: o cenário como lugar ou tempo nos quais os fatos e as cenas se desenvolvem
De certa forma, o cenário da escola representa um lugar artificializado em que o mundo vivido pela criança é diferente do mundo da escola com suas cantigas, seus combinados, suas regras e sua rotina centrada no aprender. Nesse contexto, insere-se um exemplo de uma cena presenciada na escola.
Em um momento fortuito um grupo pequeno de crianças da Educação Infantil, em pleno horário de saída, dirigindo-se ao setor transporte escolar cantarola trechos da música Dança do Créu:
É créu!
É créu neles!
É créu nelas!
Pra dançar créu tem que ter disposição
Pra dançar créu tem que ter habilidade
Pois essa dança, ela não é mole não
Eu venho te falar, são cinco velocidades
A primeira é devagarzinho, só o aprendizado
Créééééééééééééééu...(3x)
Se ligou? De novo!
Créééééééééééééééu...(3x)
Número 2!
Créu, créu, créu, créu, créu, créu
Continua fácil, né?
Créu, créu, créu, créu, créu, créu
Número 3, no talento, ó...
Créu, créu, créu, créu (3x)
Quero ver na 4, hein?
Créu, créu, créu, créu (3x)
Número 4
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu,
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, créu
Tá aumentando mané!
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu,
Créu, créu, créu, créu
Créu, créu, créu, segura DJ
Vou confessar a vocês
Que eu não consigo a nú mero 5 DJ!
Velocidade cinco na dança do créu!!
Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu (6x)
Hahahahaha
Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu-Créu (8x)
(COSTA, Sérgio, 2008)
A sincronia do cantar infantil juntava vozes até o momento em que, mediante a intervenção do adulto, as crianças foram questionadas sobre o porquê cantavam essa música, sendo convidadas a interromper o coro crescente de vozes. De certo, que não houve respostas das crianças e mais que rapidamente encaminharam-se ao seu destino rumo à saída.
Tal situação remete ao questionamento: aonde aprenderam a cantar a música Dança do Créu? A cerca do cenário da escola afirma-se conclusivamente, ela não foi cantada com as crianças na rotina do pátio. Por outro lado, fica o convite para análise atenta da letra de modo a concluir que é lúdica, criando movimentos cadenciados de remexer a cintura em diferentes velocidades.
Acrescenta-se nessa breve análise que a letra aliada a música possui componentes pedagógicos, colocando cada fase uma após outra em busca do aprendizado da dança. Além disso, Sérgio Costa, DJ e produtor carioca, relata em entrevistas que criou a Dança do Créu inspirado por seu filho, de 7 anos:
Afirma o MC que estava tentando compor versos para uma batida quando seu filho começou a brincar e a dizer "créu" depois de tudo que seu pai dizia. [...] Depois, bastou encontrar algumas dançarinas salientes, bolar uma daquelas coreografias sutilmente paquidérmicas, e pronto: surgiu a música que tomou conta das rádios, do YouTube, dos scraps de Orkut. (INTERNEY.net/blogs)
Em contrapartida, convida-se para acessar o vídeo e analisá-lo criticamente: http://br.youtube.com/watch?v=wcUxWczQVWs , relacionando-o a cena das crianças cantando animadamente a música na escola, sendo comprovado que não receberam estímulo das professoras para fazê-lo.
Desse modo, pode representar um exemplo isolado da manifestação de diferentes saberes que as crianças possuem frente as várias leituras de mundo, as influências (pouco) educativas a que estão sujeitas nas rotinas diárias. Serve, então, de alerta aos educadores para que agucem seus ouvidos, cresçam o seu olhar para a programação televisiva e radiofônica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Desse modo, a discussão em torno do filme do Pica-Pau e da Dança do Créu remete ao comprometimento da vigilância ao ato de educar crianças. Tornando-se, imprescindível acabar com o jogo de culpados aos agentes externos, assumindo a responsabilidade de ouvir e ver sem preconceitos para desvelar a intencionalidade da mensagem midiática.
Além disso, é necessário interromper o ciclo da transferência de responsabilidades em que a escola responsabiliza a Família e vice-versa pelos problemas que afetam esses ambientes. Desse modo, a família encontrará apoio nas ações desenvolvidas na escola, reforçando-as positivamente na busca do aprender sobre o brincar, sobre as cantigas, as danças, as histórias infantis e outras atividades planejadas e vivenciadas na escola.
Por sua vez a escola, compreenderá as limitações da família em meio a correria da atualidade frente ao desafio em educar na pós-modernidade. Apontando-se para parceria entre escola e família com trocas de experiências motivadoras de diálogo em que a professora desvenda para a família sobre a criança-aluno e a família sobre a criança-filho, entendendo-a como um ser holístico e em pleno desenvolvimento.
É necessário, então, ocupar-se das pequenas coisas do cotidiano: do bom-dia, do boa tarde e do boa-noite; do beijo e do abraço; da firmeza do adulto na hora da criança ir pra cama dormir; do permanecer na mesa juntos para fazer as refeições (pelo menos nos finais de semana); do respeito às normas e as regras da escola e da sociedade; do combate à mentira, da esperteza, da desfaçatez; da ironia e do perder a infância.
Destacando-se, desse modo, a biblioteca como um importante espaço da escola. Lugar aonde as crianças selecionam livros para leitura domiciliar, semanalmente. Lugar aonde as professoras selecionam os recursos multimídia para assistência e escuta na rotina do pátio. Lugar de apoio pedagógico aonde é depositado, mediante controle de entrega e saída os aparelhos de áudio e vídeo, o microfone, a casa de bonecos e outro mundão de possibilidades articuladas no planejamento das atividades.
É certo, que as experiências exitosas da escola sejam ampliadas aos espaços da criança em sua casa: arrumando um cantinho para leitura de revistas e jornais (podem ser emprestados); montando uma biblioteca (com livros bem baratinhos adquiridos em feiras ou em sebos); alugando filmes na locadora ou fazendo cópias autorizadas de filmes da Internet); montar Cd de áudio com músicas infantis que estimulem os bons hábitos, as boas maneiras, o respeito a natureza e seus animais e plantas.
O atos de leitura e escrita serão traduzidos em momentos criativos, visando parâmetros diferenciais que tornem o ambiente escolar atrativo por meio da utilização de recursos enriquecedores da prática pedagógica.
E, finalmente, um outro aspecto que chama a atenção recai sobre o ato de educar na atualidade. Desse modo, afirma-se a existência de pouca cumplicidade entre as ações aplicadas com as crianças em casa e na escola, sendo perceptível, em alguns casos, a mudança do comportamento da criança quando está na presença dos pais ou da professora (em momentos de reunião, por exemplo). Tal afirmativa ilustra a incapacidade total ou parcial de alguns adultos (na escola ou em casa) em colocar limites ante as condutas infantis, prejudicando a organização da sua adulta. Entretanto, essa temática será objeto de outro texto, oportunamente.
REFERÊNCIAS
BARBOSA, Laura Monte Serrat. A educação de crianças pequenas. São José dos Campos: Pulso, 2006.
BRASIL. Ministério da Educação e Cultura. Secretaria de Educação Fundamental. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília MEC/SEF, 1998.
COSTA, Sérgio. A dança do créu. Intérprete: DJ MC, 2008. Disponível em: <http://br.youtube.com/watch?v=wcUxWczQVWs>. Acesso em: 29 set.2008.
DANÇA DO CREU a praga deste verão. Blog Virunduns. Disponível em: < http://www.interney.net/blogs/virunduns/2008/01/14/danca_do_creu_a_praga_deste_verao/>. Acesso em: 29 set.2008.
FONSECA, Vitor da. Visão Integrada da Aprendizagem. In.: ________. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
GIKOVATE, Flávio. A arte de educar. Curitiba: Nova Didática, 2001.
LA TAILLE, Ives de. Transpor limites: maturidade e excelência. In. ______________. Limites: três dimensões educacionais. 2.ed. São Paulo: Ática, 1999. p. 13-50.
OLIVEIRA, Vera Barros de. A compreensão dos sistemas simbólicos. In.: BOSSA, Nádia A. e OLIVEIRA, Vera de. Avaliação psicopedagógica da criança de sete a onze anos. 5. ed. Petrópolis - RJ: Vozes, 1998. p. 16-45.
SANTANA, Celina. Pequenina Flor. Intérprete: Celina. In.: É hora de cantar. São Paulo: COMEP, 1992. 1 CD, faixa 13 (2 min52s.)
UM BIRUTA às soltas. Produção de Walter Lantz. Universal Pictures, 1945. Disponível em: <http://br.youtube.com/watch?v=pPv0pmtQyXM>. Acesso em: 29 set. 2008.
WITTER, Geraldina Porto. Da aquisição da linguagem oral à aquisição da escrita. In.: SCOZ, Beatriz Judit Lima. Psicopedagogia: o caráter interdisciplinar na formação e atuação profissional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987, p. 157-163. |